liniers

ser feliz me consome muito.
(clarice lispector)

A roupa suja esta acumulando na sacola da Ikea que faz as vezes de cesto, na mini-geladeira o pote de margarina faz companhia à garrafa de agua, esperando o dia em que eu decida fazer compras, a cama ficou desfeita porque sai às pressas pela manhã, ou porque deu preguiça de arrumar e ponto. Pela primeira vez em 24 anos eu moro sozinha, sem mãe, irmão ou namorado e vivo às voltas com as dores e delicias de ser uma moça independente.

Antes de me mudar eu ja sabia que os pratos que sujei no jantar não estariam limpos no dia seguinte feito magica ou as xicrinhas do filme ‘A Bela e a fera’, e imaginei que não teria paciência para cozinhar todos os dias, ja que culinaria esta longe de ser um talento. Mas acabei encontrando um mundo completamente novo assim que coloquei as malas no chão, no meu chão.

Aprendi a escolher as melhores verduras do supermercado, fiz faxina uma vez por semana, adotei novos habitos e decidi ser mais ‘verde’ por toda a vida. Passei por cima do meu nojo de ralos e do medo que sinto às vezes, quando ouço algum barulho esquisito e não tem ninguém pra me dizer que não é nada demais. Descobri que morar sozinho não é sempre facil e às vezes a gente sente falta de alguém para ajudar a arrumar a bagunça da vida, ou so pra conversar.

Mas dia desses recebi minha primeira couchsurfer em casa, coisa que mamis nunca me deixou fazer, e cheguei à conclusão de que cada dor sentida, cada minutinho de solidão perde o significado quando comparado à delicia que é ganhar asas e voar por ai, escolher a cor da louça e a receita de risotto pra fazer pros amigos, chegar em casa no meio da madrugada sem se preocupar com o barulho, acordar pela manhã e colocar a musica no ultimo volume. Nem à delicia de ser dona do meu proprio nariz – e de um studio com 18 m², :}

Eu tenho um desses segredos pequeninos, desses que se a gente não conta, ninguém nunca vai imaginar: eu não gosto de mudanças. E mesmo ja tendo morado em quatro cidades e sete casas diferentes, mesmo tendo feito uma mala de guarda-roupa por meses e tendo deixado infinitas pessoas pelo caminho, eu não me acostumo. Mudar, seja de endereço, de emprego ou de rotina, é como entrar numa piscina gelada e não poder sair, da vontade de pular pra fora logo no inicio e sempre leva um certo tempo até me habituar.

Foi por esse motivo que corri pra casa quando um vento frio começou a soprar no domingo passado – ja sabia que fevereiro chegava trazendo uma vida nova. Depois de quatro meses de estudos, de chegar atrasada quase todos os dias na sala 214, de bater papo com as meninas e me distrair com os telhados de Paris entardecendo, as aulas haviam terminado, pra sempre. Mamis também iria embora dias depois e não ia ter alguém me esperando quando eu chegasse, não ia mais sentir o cheirinho bom de café ou conversar até a hora de dormir. A verdade é que eu nem iria morar mais no mesmo lugar durante um mês, me mudaria para uma oitava casa, ja que meu studio iria passar por reformas. Tudo novo, tudo diferente e eu perdida, sofrendo pelo que ainda ia acontecer.

Mas antes de acabar roendo todas as minhas unhas, percebi que a ocasião pedia uma mudança não de habito ou de rotina, mas de atitude. Decidi aproveitar tanta novidade e me re-inventar, inaugurar uma nova fase. Comecei indo cortar o cabelo no salão de beleza e acabei de malas prontas, embarcando num trem. Coloquei o pé na estrada e mudei de ares, descobri lugares e conheci pessoas, abri a janela e vi uma paisagem completamente diferente. Me encontrei numa tarde de sol e chuva e ao final da viagem descobri que quando o assunto é mudança, a escolha mais inteligente não é ir aos poucos nem sentir a temperatura com os pés antes de entrar. Melhor mesmo é mergulhar de cabeça.

 ‘i’m gonna live each day as if it were my last
fantastically
courageously
with grace.’

(trecho do filme ‘Me, you and everyone we know’)

E mesmo que o tempo passe, mesmo que eu viva infinitas vidas diferentes, toda vez que soprar a poeira da memoria vou lembrar das minhas pequenas aventuras desse comecinho de ano. 

O passeio bêbado de bicicleta ainda na madrugada do dia primeiro, ignorando o vento frio no rosto e a quantidade de carro nas ruas; a correria no cais da estação pra não deixar que o trem partisse sem que mamis e Nando embarcassem; minha primeira apresentação de trabalho em sala de aula desde que cheguei e a sensação de que a alma ia sair pela boca, tamanho o nervosismo; e a neve que caiu sem parar na segunda-feira, deixou o mundo coberto de branco e me encantou de uma maneira que eu não achava que fosse possivel vão ficar guardados comigo, aqui dentro, pra sempre.

Seja mais que bem-vindo, 2009.

2008. Um ano que passou feito cometa, tão raro e tão rapido, inesquecivel. Desde o começo, desde o primeirissimo nascer do sol visto na praia, até agora, noite em que a temperatura esta abaixo de zero la fora e toca uma musiquinha gostosa aqui dentro.

2008 foi de sorte, de escolhas certas, de grandes aventuras. Foi ano de aproveitar o verão com as meninas e pular carnaval com os meninos, de deixar as obrigações pra mais tarde e não fazer mais nada por meses, so viver o que a vida tem de bom. E depois arranjar meu primeiro emprego de verdade e trabalhar duro, de domingo a domingo e até em madrugadas. Me formar dentro de um vestido lindo e, no lugar de ganhar baile ou viagem, ser presenteada com uma bolsa de mestrado na França, a maior surpresa desses meus 24 anos.

Pois esse foi o ano dos meus 24 e eu nunca me senti tão jovem, nem quando tinha 21. Nunca fui tão livre, nunca fiz tanta farra, nunca fui tão feliz. Me vi solta pelo mundo, cheia de amigos e de eventos, cheia de sorrisos pra sorrir e historias pra contar. Fui em festival e exposição de arte, boate e festa de formatura, boteco pé-sujo e restaurante da moda, samba de domingo, cinema de segunda-feira, caranguejo de terça e assim por diante, num divertir sem-fim… E nessa de correr o mundo eu acabei parando em Paris, vim viver meu sonho com s maiusculo.

Aqui descobri que é possivel sim sofrer na cidade mais maravilhosa do mundo, mas também que basta escolher as lentes corretas para ver la vie en rose. E aqui eu perdi o namorado e ganhei um melhor amigo, deixei de ter principe encantado pra virar Alice, encantada com o meu Pais das Maravilhas. Ganhei asas, voei alto, engoli sapo e chorei oceanos, sai na rua para beber a tempestade, voltei pra casa e ja era manhã. A vida deu um giro de 360, o francês ja esta quase fluente e a agenda do celular cheia de nomes, mamis veio visitar e nunca a vi tão orgulhosa.

Hoje faz três meses que cheguei e ja vivi tanto, mas ainda tenho tanto pra viver. De 2009 não peço muito, as listas de resoluções ainda nem estão prontas! Quero so que a vida continue assim feito parque de diversões, quero mais um milhão de aventuras, quero que o gosto de novidade que o primeiro de janeiro tem dure o ano todo. Faltam so três dias pra 2009 começar e eu ja não aguento mais esperar. Vamos começar a contar?

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